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Carta malcriada da terra

Vocês irão pagar caro, pelo que estão fazendo comigo!

Desprezados seres humanos que habitam sobre mim, há muito tempo, venho aguentando por parte de vocês, toda a carga de lixo, óleo, de agrotóxicos, do mau uso dos recursos naturais, da poluição do ar, do solo, dos rios e mares, das mutações que fazem nas plantas e animais, nas edificações que constroem onde não deveriam do aterramento dos lagos, mares, lagoas, praias e manguezais, entre outras coisas.

O desrespeito que tens pela casa de quem os acolheram não tem precedentes; nas últimas décadas eu envelheci horrores, sou uma mulher cheia de rugas, de estrias, com veias expostas que parece não ter tratamento, nem o Ivo Pitanguy poderia me recauchutar. Como sofre uma mãe nas mãos dos seus filhos (da puta).

A humanidade era para ser parte de um vasto universo em evolução.  Eu, a casa onde vocês moram, estou na UTI sem expectativa de sobreviver.  As minhas forças abaladas, fazem da sobrevivência uma aventura exigente e incerta.

A minha capacidade de recuperação depende de vocês, cambadas de imbecis, pois o bem-estar da humanidade depende da manutenção de uma biosfera saudável em todos os seus sistemas ecológicos. Uma enorme diversidade de plantas e animais, solos férteis, águas puras e ar limpo e eu aqui, toda arrombada em detrimento da ganância e o uso indevido de tudo que lhes dei. Este ambiente global com seus recursos não renováveis deveria ser uma preocupação comum a todas as pessoas.  A proteção da beleza, diversidade e vitalidade da minha saúde é um dever sagrado.

Assim sendo, estou agora mesmo nesta UTI, lhes devolvendo aos poucos os sofrimentos que me impingiram, só que infelizmente, tenho que ceifar algumas vidas, pois só a destruição material não significa nada para vocês, tem que haver morte e lamentos para que os senhores entendam a situação em que eu me encontro.

Enquanto vocês não pararem com os padrões dominantes de produção e consumo, que estão a provocar e devastação dos ecossistemas, a redução drástica dos recursos e uma explosiva extinção de espécies, eu vou retaliá-los com chicote e açoite e com muita dor, antes que eu morra, pois, já que alguém tem que chorar, que chore as suas mães, não a minha.

Não esperem de mim o perdão, mesmo estando Eu no leito de morte. Vou retaliar, cansei de ser boazinha, aliás bonzinho só se fode, veja por mim mesma.

Vocês, que foram criados, para proteger a mim e as espécies que me habitam, virou nosso pior inimigo. Bem que me disseram “filho é bom, mais dura muito.” Não acreditava que seria apunhalada pelas costas, cambadas de “Brutus”.

Rezem e façam alguma coisa pra me tirar desta UTI, urgentemente, pois se eu “cruzar a ponte” todos vocês irão comigo, ou seja, vai a mãe e os filhos pro brejo. Nem sei se vai haver brejo pra todo mundo.

Se eu morrer, filhos da puta, não haverá velório, pois como diria o Raul Seixas (cara de visão), “não tinha ninguém para velar pois o ser humano também não estava lá”.

Vou me despedindo, pois estou muito cansada, e ainda tenho que organizar uma nova catástrofe para sensibilizar vocês, criaturas de merda.

Me aguardem!!!!!

Ass: Terra moribunda

 

Por: Gilmar Mendes da Silva – Estudante de Biologia da UENF – Técnico Ambiental.

Um degustador de mulher, Campari, cerveja, vinho e café. Apreciador de música, livros e carros. Gosto das coisas simples e bem feitas.  Quase biólogo, quase músico e quase filósofo.

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