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Cynara Menezes: Admirável distopia nova

A jornalista e blogueira Cynara Menezes fala sobre a Distopia e o mundo paralelo onde passamos a maior parte dos nossos dias atualmente.

No romance Admirável Mundo Novo, publicado em 1932, Aldous Huxley imaginou um mundo dominado pela eugenia, onde as emoções são proibidas e onde é preciso usar um fármaco para obter prazer, ainda que momentâneo. Qualquer incerteza ou depressão é reprimida, assim como o pensamento crítico. Nesta sociedade de castas desumana, a felicidade, mesmo sendo uma miragem, é compulsória.

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Cynara Menezes é jornalista. Após atuar quase oito anos na revista CartaCapital, anunciou sua despedida da mídia impressa para se dedicar exclusivamente ao blog Socialista Morena. Foto: Alf Ribeiro

Em 1984, que George Orwell escreveu em 1948, o protagonista vive em um país totalitário sob vigilância das autoridades, onde os sentimentos também não são permitidos. O planeta está dividido em três grandes blocos que brigam entre si e a linguagem, subtraída dos antônimos para evitar que semeiem a dúvida, é utilizada como instrumento de dominação. A atmosfera do romance é sufocante e a fé no ser humano, escassa.

 

Ray Bradbury construiu seu Fahrenteih 451 em 1953 a partir da ideia de uma sociedade em que os livros são proibidos pelo Estado para impedir que seus cidadãos pensem de maneira autônoma. Em vez de apagar, “bombeiros” ateiam fogo aos livros quando são encontrados, até que um capitão se rebela ao ler uma linha sedutora em uma das obras que teria de destruir… Segundo Bradbury, seu romance não é, porém, uma denúncia à censura, mas contra a televisão, por roubar leitores dos livros.

“Mas o que estes autores não foram capazes de prever é ainda mais assustador: um mundo paralelo, uma terceira dimensão onde passamos a maior parte dos nossos dias atualmente”

Estes três clássicos da ficção científica trazem previsões que de certa forma se concretizaram. A principal delas: em nosso mundo, o pensamento crítico é malvisto. Somos condicionados a aceitar tudo que a sociedade de consumo nos empurra goela abaixo e, quando nos rebelamos contra isso, somos tratados como idiotas, e não o contrário. Temos de aceitar bovinamente, por exemplo, que a indústria farmacêutica, o agronegócio e os meios de comunicação são os donos da verdade absoluta sobre nossa saúde, sobre o que comemos e sobre o noticiário.

Mas o que estes autores não foram capazes de prever é ainda mais assustador: um mundo paralelo, uma terceira dimensão onde passamos a maior parte dos nossos dias atualmente. Um mundo onde, em vez de nos relacionarmos com outros seres humanos de carne e osso, preferimos a versão digitalizada deles. As redes sociais são a perfeita concretização do termo “distopia”: o mundo de fantasia tomou o lugar da realidade.

Olhe para o lado. Na fila da bagagem no aeroporto, nas mesas dos restaurantes, nas paradas de ônibus, na sala de espera do médico, no metrô. De olho no visor, com o dedo deslizando sobre a tela, viramos um bando de autômatos, de zumbis tecnológicos, desinteressados do que acontece ao redor, a não ser que seja algo interessante o suficiente para ser fotografado e… postado na internet. A egolatria é estimulada à exaustão: a pessoa viaja para outro país e não fotografa mais os lugares e sim a si próprio.

Uma pesquisa recente da Universidade de Harvard mostrou que nosso cérebro produz quantidades similares de dopamina ao fazer sexo, comer ou ter uma postagem comentada, curtida e compartilhada numa rede social, o que comprova seu potencial aditivo. Já há inclusive uma nomenclatura para o “medo” das pessoas de ficar sem o celular: nomofobia.

Veículo

Para mim, como jornalista, é inegável o papel das redes sociais como veículo de propagação de notícias. Sem elas, eu não estaria hoje vivendo do meu trabalho, sem a necessidade de estar vinculada a nenhum meio de comunicação conservador. No entanto, começo a ter sérios questionamentos sobre aonde esta excessiva vivência online nos está levando. Volta e meia me surge mentalmente a imagem de que somos ratinhos indo em direção à ratoeira ou de condenados caminhando rumo ao cadafalso – e por vontade própria.

O pior é se dar conta que, por influência da mídia tradicional, estamos medindo o mundo real pelo virtual, e estou segura de que um pouco ou nada tem a ver com o outro. Examinando os desconhecidos com quem tenho contato na página do blog no Facebook, percebo que pelo menos metade delas jamais faria parte do meu convívio pessoal. Eu nunca as conheceria se não estivesse nas redes. Ou seja, meu mundo é bem diferente daquele. E, no entanto, passo horas ali. Sim, é trabalho, o que não muda o fato de que estou encerrada em um ambiente irreal durante a maior parte do meu dia. Isto embota e distorce a visão, claro.

Vida real x virtual

Lembrando Ray Bradbury, quantos livros deixei de ler para estar nas redes sociais? Quantas caminhadas deixei de dar? Quanto tempo de convívio perdi com meus filhos e meu amor? Pratico “redução de danos”: não possuo smartphone, portanto, sempre que estou fora do escritório estou offline. É um exercício libertador, porque me obriga a interagir com o próximo e me coloca longe da tentação de “checar” Facebook e Twitter. Fora deles, eu olho para a natureza, observo meus semelhantes e, sobretudo, penso.

As úteis redes sociais, assim como a televisão, são uma forma de distrair a cabeça, mas também de não pensar. Compartilhar conhecimento é maravilhoso, mas até que ponto as pessoas de fato lêem os textos que distribuem internet afora? Está provado que a maioria das pessoas não passa do título das matérias e, entre as que lêem o texto, apenas uma pequena parte chega ao final. Para quem trabalha com jornalismo online, é desanimador – muito embora, em meu blog, eu tenha tido experiências extremamente satisfatórias no sentido oposto: textos longos e com alto índice de leitura.

O futuro que se avizinha com as redes sociais de um modo geral, no entanto, não é nada alentador. Um mundo onde as pessoas se encontram cada vez menos com seus entes queridos e cada vez mais trocam com eles frias mensagens instantâneas pelo telefone ou pelo computador. E aí talvez chegue um tempo em que se realize a profecia comum aos três clássicos que citei neste artigo: um mundo onde os sentimentos, o abraço, o toque, o olho no olho, sejam menos e menos valorizados.

Não estou pregando, naturalmente, que as pessoas abandonem as redes sociais. Elas já fazem parte de nossas vidas. Estou fazendo meu papel de acender a dúvida e acionar o pensamento crítico, que ainda não é proibido. Em que mundo queremos viver? Na realidade ou na distopia?


♦ Cynara Menezes é jornalista e editora do blog Socialista Morena (socialistamorena.com.br). Colaborou: Telma Prado.

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