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Seca: Produtores perdem safras e cabeças de gado

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              Animal tenta comer pasto seco em São Fidélis                  Foto: Antonio Scorza / Agência O Globo

Sem chover há 49 dias no município de São Fidélis, grande parte do que brotou nos últimos meses não será aproveitada. Um agricultor que plantava tomates até 2012, resolveu investir em bananas no ano passado. Não deu certo, e mesmo que não tivesse feito a troca, ficaria no prejuízo.

— Minha safra está arruinada. Não há água para plantar nada, e os animais sofrem de sede. A situação é crítica — diz o agricultor.

Siqueira plantou 32 mil pés de banana. Apenas metade poderá ser vendida — mas por um preço baixo, já que a fruta está com tamanho reduzido e sabor comprometido. O restante será descartado. Incluindo os gastos com um sistema de irrigação, o investimento do agricultor na plantação foi de R$ 500 mil. Considerando a grande probabilidade de não conseguir colher a safra que previa para o ano que vem, ele calcula que seu prejuízo chegará a quase R$ 1 milhão.

— Minha situação não é única. Ela se repete no estado inteiro e atinge do pequeno ao grande produtor. Minha vontade é abandonar a terra. No último mês, passei a noite olhando para o céu, implorando para chover — conta Siqueira.

Segundo estimativas da Emater, empresa estadual responsável pela assistência técnica rural, o prejuízo com a seca no Norte e no Noroeste Fluminense chegou a R$ 70 milhões em 2014. As perdas de janeiro ainda não foram contabilizadas, mas, segundo técnicos, serão significativas. De acordo com um levantamento feito de outubro a dezembro, foram descartados 5% das hortaliças e dos legumes plantados, houve uma redução de 20% na produção de leite e pelo menos 3 mil cabeças de gado morreram. A Emater já prevê que, nos meses de abril e maio, serão afetados 15% da safra de cana-de-açúcar.

— As regiões Norte e Noroeste vivem a pior situação. Há dois anos, na mesma época, estávamos nos recuperando de uma grande inundação, e, agora, precisamos agir em um cenário oposto — diz Christino Áureo, secretário estadual de Agricultura e Pecuária.

PARAÍBA DO SUL CADA VEZ MAIS RASO

Para quem segue o curso do Paraíba do Sul, o cenário é desolador. Na divisa entre os municípios de Itaocara e São Fidélis, o rio está seis metros abaixo do nível normal para esta época do ano. Em um ponto no qual a distância entre as margens chegava a 500 metros, metade do leito virou areia. Onde ainda há água, é fácil ver o fundo.

Em São Fidélis, terceira maior economia do Norte Fluminense, a seca mudou radicalmente a cidade. O Canal Catarina, que corta o município, secou. Isso surpreendeu muitos de seus 36 mil moradores, que, nesta época do ano, costumavam ficar preocupados com a água que invadia casas durante as chuvas. Segundo o secretário municipal de Agricultura, Gilberto França, 4,5 mil pessoas que moram em áreas distantes do Centro não estão conseguindo mais usar seus poços artesianos.

— Meu telefone toca o dia inteiro. São moradores desesperados com a falta d’água (enquanto concedia a entrevista, ele atendeu o celular seis vezes e ouviu pedidos de envio de carros-pipas). Decretamos estado de emergência no final de novembro. Estou de mãos atadas. Queria ajudar, mas não há o que fazer — afirma França.

A 48 quilômetros dali, no município de Italva, no Noroeste Fluminense, a situação é a mesma. Metade da população de 14 mil habitantes da cidade, que capta água do Rio Muriaé, está sendo abastecida por carros-pipas. De acordo com a prefeitura, há 360 pecuaristas com pressa para vender as cabeças de gado que lhe restaram. Na última quinta-feira, Valdecir Souza Terra negociou 30 animais para um fazendeiro de Mato Grosso.

— Em condições normais, eu arrecadaria cerca de R$ 30 mil pelo rebanho. Mas tive de dar um desconto de 30% porque os bois estão muito magros — conta Valdecir.

Em São João da Barra, município de 35 mil habitantes, o sofrimento de moradores com a seca é agravado pela água do mar que está entrando na foz do Rio Paraíba do Sul, um fenômeno provocado pela redução de seu nível. A Cedae vem monitorando diariamente a situação desde novembro — a quantidade de sal não pode ser maior que 40 moléculas por partícula de água doce. Quando ultrapassa, deixa de ser própria para consumo.

Com o nível do rio baixo, em dias de maré cheia a concentração de sal chega a 700 moléculas por partícula de água. Isso obriga a Cedae a interromper a captação.

— O problema é que, quando precisamos desligar as bombas de sucção, são pelo menos oito horas sem o equipamento funcionar. Precisamos esperar a maré baixar para a água sair do nosso reservatório — explica o operador de tratamento André Luiz.

Para tentar combater a seca no Norte e no Noroeste Fluminense, o governador Luiz Fernando Pezão esteve em Italva na última segunda-feira e apresentou um programa emergencial de apoio aos produtores rurais. Contando com um financiamento do Banco Mundial, o estado planeja investir, até 2018, US$ 280 milhões em soluções para a seca, incluindo reflorestamento em áreas de nascentes e abertura de poços.

O economista Mauro Osório, que pesquisa o agronegócio fluminense, aprova a iniciativa, mas lembra que o estado demora a agir quando o assunto é incentivo à produção rural:

— Segundo o IBGE, de 2000 para 2010, a oferta de emprego no setor recuou 16% no Norte e 10% no Noroeste Fluminense. O Rio tem capacidade de produzir muito mais e precisa expandir o agronegócio para outras regiões.

Fonte: Campos 24 Horas

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